Pastor sequestrado é morto e Nigéria decreta estado de emergência após onda de ataques
- Redação

- 2 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Morte de sacerdote anglicano, rapto de mais de 300 crianças e escalada da violência levam governo a adotar medidas inéditas de segurança

A Nigéria enfrenta uma das piores crises de segurança de sua história recente. Após uma série de ataques armados, centenas de sequestros e a confirmação da morte de um pastor mantido em cativeiro, o presidente Bola Ahmed Tinubu decretou estado de emergência em todo o país. As medidas incluem reforço massivo das forças de segurança, mudanças estruturais nos serviços policiais e novas regras para a proteção de comunidades e locais de culto.
O anúncio ocorreu após o sequestro de mais de 300 crianças e diversos ataques simultâneos em várias regiões. Segundo a organização Christian Solidarity Worldwide (CSW), o governo nigeriano autorizou a contratação imediata de 20 mil novos policiais, além dos 30 mil previamente aprovados, todos destinados a áreas afetadas pela violência. Tinubu também autorizou o Departamento de Serviços Estaduais a incorporar guardas florestais e determinou apoio federal às agências de segurança estaduais.
Entre as decisões mais rigorosas estão a retirada de policiais das escoltas de autoridades, a proibição do pastoreio livre de gado em zonas críticas e a ordem para que pastores entreguem armas ilegais. Igrejas, mesquitas e demais locais de culto também receberam recomendações formais para contratar equipes privadas de segurança. Governos estaduais foram orientados a evitar a instalação de internatos em regiões remotas sem proteção adequada.
Pastor é morto após um mês em cativeiro
A crise atingiu um nível ainda mais dramático com a confirmação da morte do reverendo Edwin Achi, da Diocese Anglicana de Kaduna. Ele e sua esposa, Sarah, foram sequestrados em 28 de outubro na comunidade de Nissi, estado de Kaduna. A confirmação do óbito veio na quarta-feira, 27 de novembro.
“Sua partida é uma perda dolorosa para toda a Diocese, o clero, a família da igreja e todos aqueles que foram abençoados por seu fiel ministério”, declarou a Igreja da Nigéria em nota oficial.
Sarah Achi permanece em poder dos sequestradores. A filha do casal também foi levada pelos criminosos, embora não tenha sido vista nos vídeos divulgados pelo grupo.
O caso repercutiu fortemente no Senado nigeriano, onde parlamentares classificaram os sequestros como atos de terrorismo. A proposta de pena de morte para sequestradores ganhou apoio após relatos de falhas de inteligência, falta de equipamentos e denúncias de infiltração de extremistas nas forças armadas.
O ex-vice-presidente da Câmara, Idris Wase, alertou que a região centro-norte concentra mais da metade dos episódios violentos. Ele afirmou ainda que nomes ligados ao Boko Haram teriam sido identificados em listas de recrutamento do Exército e da polícia.
Sequestros em massa chocam o país
Um dos casos citados no Parlamento foi o rapto de 303 alunos e 12 funcionários da Escola Primária e Secundária Católica de Santa Maria, ocorrido em 21 de novembro, na comunidade de Papiri, estado de Níger. A maioria das vítimas tem entre 9 e 14 anos. Criminosos em motocicletas invadiram os dormitórios antes do amanhecer. A CSW informou que 253 estudantes ainda estão desaparecidos.
A tragédia provocou a morte de um pai de três alunos, Anthony Musa, que sofreu um ataque cardíaco dias depois segundo familiares, consequência do trauma causado pelo sequestro.
Outros ataques recentes incluem:
Sequestro de 26 meninas em uma escola pública de Maga, estado de Kebbi, no dia 17 de novembro. Em 25 de novembro, Tinubu informou que 24 delas foram libertadas.
Ataque a um culto religioso em Eruku, estado de Kwara, no dia 21 de novembro, que deixou dois mortos e 38 sequestrados posteriormente libertados.
Rapto de seis meninas e um adolescente na região de Bwari, em Gidan-Bijimi, na última quarta-feira.
Sequestro de cerca de 20 agricultores em Unguwan-Kawo, no estado de Níger, também na mesma data.
Extremismo e crise humanitária crescente
Especialistas indicam que a escalada da violência está ligada à ação coordenada de grupos extremistas islâmicos, gangues criminosas e milícias Fulani. Segundo o Grupo Parlamentar Multipartidário para a Liberdade Internacional de Religião ou Crença, do Parlamento do Reino Unido, comunidades cristãs no norte da Nigéria são alvos frequentes do Boko Haram, do ISWAP e de extremistas Fulani.
O relatório Lista Mundial de Vigilância 2025, da organização Portas Abertas, destaca ainda o avanço do grupo Lakurawa, com atuação no noroeste do país e ligação com a JNIM, afiliada da Al-Qaeda no Sahel. Segundo o documento, dos 4.476 cristãos assassinados por motivos de fé no período analisado, 3.100 foram mortos na Nigéria.
Com o estado de emergência e o apelo internacional crescente, o governo de Bola Tinubu tenta conter uma crise que já devastou comunidades inteiras, ameaça a liberdade religiosa e expõe milhões de nigerianos à insegurança extrema.







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